quarta-feira, 4 de junho de 2008

Acordaste mais cedo que ele. Já não estás habituada a partilhar uma cama, ainda que seja enorme e com espaço para criares uma barreira de lençóis intransponível. Rebolas na cama, destapas-te para sentir o frio na cara e voltas a tapar-te vezes sem conta, com medo que ande por ali alguma alma perdida. Perguntas o que estás ali a fazer, àquela hora da manhã, em que o sol mal se levantou e as pessoas dormem sob o abismo. Olhas para o lado. Perguntas quem é ele, embora o conheças há demasiado tempo, tanto tempo que a pergunta torna a ganhar novo sentido. E abanas a cabeça, para afastar estas perguntas tolas, virando-te de costas. Não queres saber. Não precisas saber. Dorme.

Preto. Vermelho. São vultos. Muitos. Poucos. Parecem muitos. São realmente muitos. Com capas. Olhares vazios. Mãos. Muitas mãos. Agarram-te. Querem-te puxar. Vai com eles. Angústia. Sente-se o frio. O coração aperta. A mão agarra-te. NÃO!

- Era um sonho querida, tem calma.
- Acordei-te? Desculpa. Não sei o que se passou comigo. Foi um pesadelo. Era estranho.
- Não te preocupes, agora já passou. Volta a dormir, ainda é cedo.

Ainda é cedo... Cedo, para quê? Perguntas tu. Cedo para levantar e ir trabalhar? Cedo para ser sincero? Cedo para ter medo? Cedo para "sempre"? Cedo para "nunca"? Cedo, desconstruída assim, a palavra nem parece ter sentido. Mas para ele a dizer é porque tem, não é? Faz sentido... Senão não dizia, claro. Para quê dizer palavras sem sentido?

1 comentário:

Anónimo disse...

gostei tanto! fico feliz por saber que afinal não paraste de escrever! =)